Santa Clara

Conheça um pouco mais sobre essa Santa:

Sobre a adolescência de Santa Clara e a fundação de São Damião

1 Irmãos caríssimos, celebrando com a devida solenidade o dia do aniversário de Clara, virgem consagrada a Deus, venerável esposa de Cristo, percorramos em palavras sucintas os sagrados primórdios, o desenrolar e a conclusão de sua vida.

2 Oriunda de preclaros genitores, pela nobreza da origem e pela honestidade dos costumes, depois que recebeu a claridade da graça superna, brilhou não só na cidade de Assis mas também resplandeceu com maior clareza por todo o mundo.

3 Quando sua mãe, chamada Hortolana, carregava ainda no jardim de seu seio esta nobre plantinha, e já estava perto de dar à luz, rezava atentamente diante do Crucificado na cruz, para que a ajudasse a escapar com saúde do perigo do parto, ouviu uma voz que lhe dizia:

4 Não te assustes, mulher, porque salva vais parir uma luz que vai deixar o mundo mais claro.

5 Instruída por esse oráculo, deu o nome de Clara à menina que nasceu quando renasceu pela água do santo batismo, segura numa fé inabalável de que dentro em breve nela haveria de se manifestar a claridade da luz prometida pelo céu.

6 Mal tinha vindo à luz, a pequenina Clara começou a brilhar por um oportuno esplendor de carismas, como uma aurora, e se destacou nos anos mais tenros pela probidade natural de louváveis costumes.

7 De fato, cheia de suavidade, tanto por dom da natureza quanto pela graça, estendia a mão de boa vontade para os pobres, e, para que seu sacrifício fosse mais agradável a Deus, privava seu próprio corpozinho dos alimentos delicados, mandando-os escondidos por mensageiros, e refazia o estômago de seus pupilos.

8 Gostava de dedicar-se à santa oração, e nela, muitas vezes perfumada pelo bom odor de Cristo, e atraída pelo gosto suave do espírito para as delícias perenes, pouco a pouco ia levando adiante sua vida celibatária.

9 Também usava sob as vestes preciosas e macias um pequeno cilício escondido e como a outra virgem nobre, Cecília, florescendo para o mundo exteriormente, vestindo Cristo interiormente, fazendo que deixava para depois o casamento mortal, recomendava ao Senhor a sua virgindade.

10 Por isso, trescalando os suaves perfumes como um depósito de aromas, começou a ser louvada, sem o saber, pela boca dos vizinhos, e, espalhando-se a fama verdadeira dos atos secretos, espalhou-se pelo povo o comentário de sua bondade.

11 Esses foram os prenúncios de suas virtudes na casa paterna, essas as primícias do espírito, esses os prelúdios da santidade.

12 Quando ouviu o nome, então famoso, de Francisco, que como um homem novo enviado por Deus renovava o esquecido caminho da perfeição seguindo os vestígios do Crucificado, por inspiração do Pai dos espíritos, quando houve oportunidade por parte da sociedade e do tempo, foi procurá-lo e lhe manifestou o segredo de seu coração.

13 Por sugestão do homem de Deus, que à maneira de um fidelíssimo padrinho, lhe instilava nos ouvidos virginais o desprezo do mundo e os doces esponsais de Cristo, a virgem preclara não adiou o consentimento, antes, acesa nos ardor do fogo celeste, desprezou altaneira a glória da vaidade terrena, teve um horror direto das ilusões da carne, propôs-se a ignorar o leito nupcial no delito, e se entregou totalmente aos conselhos do mesmo bem-aventurado pai.

14 Então o servo do Senhor ordenou, na iminência da celebração das Palmas, que no dia da festa fosse enfeitada para receber a palma no meio do povo, e na noite seguinte, saindo com Cristo para fora do acampamento, transformasse a alegria mundana no luto da paixão do Senhor.

15 Por isso, tendo abandonado a casa, a cidade e os parentes, apressou-se para Santa Maria dos Anjos, onde os frades, que montavam sentinela no recinto de Deus, receberam a virgem prudente que ia ao encontro de Esposo com a lâmpada não vazia, carregando eles mesmos fachos ardentes nas mãos: e depois que ela cortou os cabelos diante do altar da Virgem mãe de Deus e foi revestida com o hábito da religião, levaram-na a um mosteiro vizinho de mulheres consagradas.

16 Nem era conveniente que fosse levada a florescer em outro lugar, na véspera dos tempos, a ordem da virgindade, a não ser no leito daquela que foi a primeira de todos e a única que se tornou mãe e virgem, para que como que diante de sua cama a humilde serva unida ao sublime esposo, ouviu-se primeiro os doces cânticos angélicos do drama que deveria cantar para sempre, e depois os cantasse em harmônica jubilação.

17 Depois disso, o inimigo do gênero humano suscitou uma grave perseguição dos parentes, mas ela a superou pela força da virtude celeste e se mudou com uma irmã virgem, chamada Inês, que também tinha se convertido a votos semelhantes pelas preces e lágrimas do santo, para a igreja de São Damião, para cuja reparação o homem de Deus Francisco tinha recebido um mandato por uma voz da própria cruz que se dirigira milagrosamente a ele.

18 Por amor do esposo celeste, a virgem Clara fechou-se na prisão desse lugarzinho.

19 Aí, escondendo-se da tempestade do mundo, encarcerou seu corpo enquanto viveu. Fazendo seu ninho na caverna dessa muralha, como uma pomba simples e gemente, fundou um mosteiro sagrado, começando a Ordem das Senhoras Pobres.

20 Espalhando-se, assim, por toda parte, a fama de sua santidade, no odor dos perfumes espirituais começaram a acorrer as jovens, preferindo a união com o esposo celeste a toda suavidade das alegrias do mundo, empenhando-se pelo seu amor principal a levar uma vida religiosa e celibatária sob clausura perpétua.